Instrumento de trabalho, fonte de lazer, meio de comunicação, biblioteca para estudo – o computador agora é o ator principal na maioria das nossas cenas diárias. O problema é que, ao contrário das máquinas, o corpo humano não foi programado para passar tantas horas “ligado” a uma tela. O hábito de ficar dias sentado em postura inadequada, forçando a vista e os punhos, acaba causando uma “pane geral”. Só que no usuário.
Até 70% dos pacientes que procuram os consultórios oftalmológicos com queixas como cansaço visual, olho seco e visão turva são portadores da chamada Síndrome do Computador. Essas pessoas passam mais de três horas diárias em frente à máquina e acabam desenvolvendo os sintomas.
- Dentro do olho há uma musculatura que trabalha focando o cristalino para a visão de perto, que abrange objetos a até cinco metros de distância. Para ler a tela, esta musculatura intrínseca do olho se esforça muito, o dia todo – conta Canrobert Oliveira, diretor do Hospital Oftalmológico de Brasília. – Os músculos são os mesmos que tínhamos na pré-história, não foram feitos para passar tantas horas em trabalho extremo, e sim para olhar uma fruta, por exemplo, e desviar a vista.
Pausa periódica
Cada músculo do corpo humano tem uma condição de trabalho e fica desgastado com esforço repetido. Os das pernas, por exemplo, ficam doloridos durante longas caminhadas e é preciso parar para descansar. O mesmo ocorre com os do olho. A pessoa tem de fazer uma pausa a cada 50 minutos para desviar a visão do monitor e focalizar algo distante, pela janela.
- Em frente ao computador, o individuo esquece de piscar. Das pessoas que trabalham usando a máquina, 40% têm fadiga ocular e em torno de 60% alteram o ritmo do piscar e ficam com o olho seco – diz Oliveira. – Precisamos piscar de 15 a 20 vezes por minuto. A córnea tem células e fibras vivas, que respiram e são nutridas pela lágrima.
Essa menor lubrificação, agravada pela secura provocada pelo ar condicionado, deixa o olho vermelho e provoca coceira e ardência. As pessoas também sentem dor de cabeça, enjôo e ficam irritadas, além de perderem parte da sensibilidade do foco ocular.
A pedagoga Elizabeth Ferreira, 49 anos, passa até 16 horas no computador diariamente. Há um ano, sua vista começou a arder e doer muito.
- No começo de janeiro, tive uma irritação muito grave, a vista ressecou a tal ponto que rasgou a retina. Já fiz uma cirurgia e farei outra para fechar o canal lacrimal, porque minha lágrima ficou com má qualidade – lamenta Elizabeth.
Cansados, os músculos internos do olho começam a entrar em espasmo para manter o cristalino focado para perto e depois não voltam ao ponto de repouso total. Segundo o oftalmologista, o individuo acaba adquirindo uma falsa miopia, ou parece ter mais graus. A redução do tempo na frente da tela pode melhorar o quadro.
- A pessoa pode lançar mão de um umidificador na sala para neutralizar a secura do ar e usar lágrimas artificias. O soro fisiológico não funciona bem, porque a lágrima não é só água e sal, tem gordura, proteína, açúcar e muco – explica Oliveira.
O excesso de luz da tela no olho queima os pigmentos que dão a visão e reagem com a luminosidade para a pessoa enxergar os objetos. Essa queima excessiva exige esforço maior de reposição e prejudica a vista. Diminuir a intensidade da luz do monitor, usar um filtro ou ficar mais distante da tela pode ajudar.
- Os que têm miopia ou astigmatismo são mais afetados pela síndrome, porque normalmente já fazem mais esforço para ler – acrescenta o médico.
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